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Retrato da vida da escritora

Retrato da vida da escritora

Aprendi a ler em casa com minha mãe. Eu implorei pra ela me ensinar nas férias antes de a escola ensinar. Admito que eu queria me exibir, me amostrar como a primeira alfabetizadinha da turma. Nem sabia que estava entrando em contato com uma paixão.

Mas já amava livros, mesmo antes de ler. Amava ir na biblioteca da escola ler tudo da Eva Furnari com sua Bruxa Onilda.
Depois virei a pessoa mais viciada em gibis da Turma da Mônica que existiu. Não podia ver um gibi novo nem de longe, parava a conversa e a brincadeira, só retomava depois de ler.
A gente assinava os gibis da turma e saíamos no tapa, eu e o Lucas Caram, para ver quem pegava o da Mônica primeiro. O perdedor pegava o do Cebolinha, e os outros dois já estavam combinados: o da Magali era meu e do Cascão do meu irmão. @mauricioaraujosousa formou nosso caráter.
Depois mergulhei nos livros e passei a compor e escrever, especialmente na adolescência. Fiz músicas para minhas amigas e comecei com meu caderninho de poesia.
Na faculdade (sou formada em música pela Unesp) deitei e rolei na biblioteca, consegui zerar minha leitura em Guimarães Rosa e lia o tempo todo no pátio, com o barulho que fosse. Meus amigos brincavam que aos 40 anos teria lido tudo que existe. Mas a verdade foi que de lá pra cá li menos. Triste verdade.
Fato é que tenho o maior orgulho do universo de ter me tornado compositora assumida (muuuuitos anos depois, a coragem só veio em 2015) e de ter lançado (quem diria!) já dois livros de poesia.
Quero envelhecer escrevendo cada vez mais.
Amo a imagem do artista anônimo, escrevendo quieto, em qualquer lugar, e mudando o mundo com suas palavras espalhadas sem depender de sua presença.
Taí, uma parte de mim é amostrada, a outra é fã do silêncio e da solidão.
Sempre foi assim.
Retrato da minha vida, eu disse.
🌊
Obrigada a cada um de vocês que já ouviu ou leu as palavras que me revolucionaram.
Todos os livros e discos estão disponíveis na lojinha aqui do site.
E que a gente não se perca nunca da criança que a gente foi.💜

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Coracão Agradecido!


Amades, só preciso fortemente agradecer.
Não é fácil criar um projeto novo.
As idéias sim, vão e vêm, e num ano tão imprevisível como este, em que a arte foi muitas vezes nosso ponto de segurança emocional, nossa boia para não afundar, deu vontade de cantar e tocar tudo o que pudesse existir que parecesse dar o mínimo de conforto, a todas as pessoas.
O encontro com a obra de Gonzaguinha foi por acaso.
Na minha sequência de lives de cura, em Julho no Youtube, pensei fazer alguns especiais com compositores que me fazem sarar.
Logo pensei Paulinho da Viola (minha terapia) e o moleque Gonzaguinha (meu abridor-de-coração).
Eu, quando era adolescente, tinha um CD de escutar na estrada, que eu mesma gravei com canções variadas, e ele me fazia esquecer todos os problemas e sorrir sozinha ouvindo meu discman (sim, sou dessa época). A primeira canção era Corrida de Jangada, de Têtes Raides e Capinam, na voz da Elis Regina, que eu colocava assim que a viagem começava (“Meu mestre deu a partida, é hora, vamos embora, nas ondas do litoral vamos embora!”). A segunda ou terceira era Eu Nem Ligo. Aquele Gonzaguinha que não esquentava a cabeça e ia com força nas coisas que devia fazer era meu mestre.
E ainda é.
Quando pensei em criar um show e gravar um disco, primeiro me perguntei se havia repertório suficiente dentro do meu conhecimento.
Comecei a fazer a lista e não parava mais!
Aí ouvi Com a Perna No Mundo, só para checar se eu sabia a letra, e não sabia: fui cantar no quarto estudando e chorei e chorei. “Diz lá pra Dina que eu volto!” Essa ode de amor à sua madrinha, quase mãe, pois a Dina foi quem criou nosso artista, quebrou meu coração de mãe novinha.
Meu bebê estava com 8 meses, e eu tendo que estudar quando ele dormia, à noite, já exausta, depois de amamentar e jantar (dá mais sono do que nadar o dia inteiro!).
Mas Gonzaguinha nunca me cansou. Só devolvia o fôlego.
Inesquecíveis passeios com o Lampião à noite ouvindo aquelas canções. Inesquecíveis passeios sozinha estudando esse repertório.
Afeto e Luta nasceu finalmente, de parto normal sem desespero, sexta passada, dia 4 de dezembro, com um time dos sonhos me apoiando.
E a ajuda de vocês.
Já quero agradecer a todos que colaboraram com a campanha de financiamento coletivo:
Valnei Santos
José Roberto Jr
Larissa Caldin
Lara Kadocsa
Gerlany Dias
Maura Matiuzzi
Carol Venciguerra
José Donizetti Jr
André Luiz
Tereniak
Claudio Queiroz
Joao Garrido
Wagner Oliveira Braga
Diana Pio Monteiro
Glauco Lima
Arquimedes Diniz
André Tereniak

Graças a vocês o disco já será mais fantástico do que eu conseguiria sozinha!
Afeto e Luta para todos sempre! Até que só sobre afeto!
Em breve mais causos sobre a produção desse álbum, de direito à fantasia e melhorar a realidade.

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Da Expectativa

Quase um ano atrás: Dezembro de 2019.

O parto foi difícil e eu esperava mais fácil.
Amamentar foi incrivelmente fácil e eu esperava extremamente difícil, até impossível.
A noite foi incrível e eu esperava tumultuada.
A recuperação do corpo é complexa e lenta e eu esperava simples e rápida.
A ausência da barriga imensa é uma das maiores alegrias da minha vida, e eu esperava saudade.
O puerpério começou doce e grato, e cheio de lágrimas, e eu esperava as lágrimas, mas as que imaginei seriam de desespero, não de felicidade.
Um mergulho em mim. Um olhar para quem fiz e me ver recém-nascida, e olhar para mim e me ver mais forte do que me imaginava, e olhar para ele e ver quem ainda não conheço mas já é um companheiro.
As regras que me ensinaram, notar que não sei executá-las. Que algumas não funcionam para mim. Que algumas pareciam difíceis e foram fáceis.
Avessos, conflitos, refúgios, afetos.
Tudo isso é imensidão desconhecida impressionante que imaginei ser a maternidade.

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Aprendi que hoje é festa de nascimento, e tomei fôlego para contar, 9 dias depois, do único nascimento que assisti (e de que fiz parte), que (já) mudou a minha vida para melhor – e para sempre.
A data prevista de parto do Francisco era 23 de dezembro, e eu sonhava que ele viesse antes do natal. Pedia para que ele viesse antes.
Me preparei a gravidez toda para um parto normal. Fiz exercício, trabalhei, fiz fisioterapia pélvica, epi-no, meu marido aprendeu massagens para aliviar contrações, enfim, tive uma gestação quase impecável.
Mas a gente não controla nada, e dia 16 de dezembro, depois de uma manhã normal, comecei a passar muito mal depois do almoço. Não me alarmei. Mas em uma hora a dor já estava nível máximo, com pausas minusculas, e meu marido veio pra casa voando pra me encontrar chorando e gemendo deitada debaixo do chuveiro. 1h depois a bolsa estourou, mas sem alegria: a água da bolsa tinha uma coloração que eu sabia que podia significar sofrimento fetal.
Fomos para o hospital com contrações de dois em dois minutos, mas respirando e cantando a playlist do nascimento.
Quando chegamos enfim, foi constatado que o neném estava bem e podíamos tentar ainda parto normal. A única hora que passamos na sala de parto humanizado foi das mais bonitas (e dolorosas) da minha vida. Cada música que tocava, novo fôlego.
Mas veio a notícia: o neném não ia aguentar aguardar, tínhamos que fazer cesariana.
Imediatamente topei, feliz, porque a dor ia passar, e a vida do meu filho estaria salva.
Tivemos uma cesariana linda, ouvindo a canção que meu irmão @lucascaram fez pro Francisco, e recebi no cangote o neném assim que ele veio ao mundo, aquela coisa gosmenta e gostosa, que me fez chorar tudo que não chorei uma vida inteira.
Há mulheres que têm partos normais lindos. Há mulheres que agendam cesariana. Há mulheres como eu, que querem uma coisa e fazem o necessário na hora. Eu alertaria para o fato de que a recuperação da cesariana é dolorosa, longe da praticidade que se imagina. Passar pelo trabalho de parto é bom. Mas não acho que nenhuma mulher deva sentir culpa. Nem medo. Tenho orgulho do que fiz. Há vida tão além do parto! E toda nova vida é orgulho. 💙